Em "A princesa e o gigante", são os livros infantis e as histórias que salvam o ogro
16 de Março de 2019 às 14:23
Originalmente publicado no Blog da Brinque
*Nos livros ilustrados, ilustração e texto contam a história, complementando-se e estabelecendo um diálogo. Às vezes, o texto conta uma coisa e a ilustra mostra outra, ampliando o sentido ou mesmo criando um ruído engraçado e divertido. Para ler um livro ilustrado, é preciso ler também suas imagens.
Pois bem. Tudo ia às mil maravilhas nesse reino, não fosse por um detalhe: no fundo do quintal, havia um pé de feijão; no topo dele, claro, vivia um gigante resmungão.
A princesa perguntou aos pais por que os gigantes eram tão maus Sempre foram - mamãe falou Sempre serão - papai completou
Mas como? Mas por quê? Sophia, a princesa que não tinha esse nome por acaso, queria saber mais sobre o vizinho incômodo que todos temiam!
O rei entregou a ela um livro que contava a história de João e o Pé de Feijão. Aquele João que descobriu um pote de ouro e teve de se haver com um gigante muito do mau humorado que queria nada menos que comê-lo!
Ela leu, leu e leu. Mas não se deu por satisfeita. Será que o gigante era apenas mau mesmo?
Mais tarde, enquanto lia uma outra história - aquela de João e Maria presos na casa feita de doces pela bruxa faminta - ouviu os barulhos e resmungos do "vizinho" ogro. Puxa! É isso, pensou. Partiu então, árvore acima, com uma mochila nas costas e uma ideia na cabeça: o gigante tinha era fome!
Foi recebida de muita má-vontade pelo brutamontes em sua casa no alto do pé de feijão, mas levava para ele uma tigela de mingau, que ele saboreou de uma golada só. Será que agora os barulhos e resmungos e ameaças, que tanto apavoravam os moradores do reino, parariam?
Nada! O humor do gigante até que melhorou, mas não muito.
Ela leu sobre a menina e os três ursos esfomeados, e se perguntou se os gigantes ficam tristes ou apavorados.
Repare que é o livro que faz o gigante dormir. E, depois, é o livro que sela definitivamente a amizade e a convivência entre humanos e gigantes, até então considerados ameaçadores e inimigos. A família real, antes de Sophia, estava a um passo de prender o ogro. Simbolicamente e delicadamente, essa passagem nos faz pensar nos ciclos intermináveis de violência e repressão onde não há arte e subjetividade como meios de expressão e compreensão genuínos.
É a arte - corporificada na literatura - que permite à Sophia pensar além do óbvio, dos estereótipos e do "sempre foi assim" para criar novas respostas e ampliar a subjetividade, tirando do lugar tanto ela mesma quanto o gigante, refém do "papel" de vilão até ser libertado pela literatura e viver feliz pra sempre!
Este texto foi publicado originalmente no Blog da Brinque e estava hospedado no site da Brinque-Book. A editora Brinque-Book foi integrada ao Grupo Companhia das Letras em outubro de 2020 e a migração deste conteúdo para dentro do Blog da Letrinhas tem como objetivo somar conhecimentos, unificar os blogs e fortalecer a produção de conteúdo sobre literatura infantil, leitura e formação de leitores.



